Lia-te ...

by - setembro 11, 2025

 Era ali.... no silêncio habitado pelos ecos da madrugada, que eu te encontrava. Não eras uma pessoa, mas um universo inteiro, composto de sílabas douradas e metáforas que cantavam!!! Eu lia-te.... E essa leitura não era um ato de decifrar signos, mas uma cerimónia íntima, um ritual onde a minha alma se despia de toda a matéria para dançar com a tua essência, pura e desimpedida!!!

Nas nuvens da poesia, o mundo comum dissolvia-se.... O céu, esse mudo e distante azul, rasgava-se em véus de luz, num espetáculo que era só o nosso. Cada nuvem era um pensamento teu, uma emoção flutuante que eu podia tocar com os dedos da imaginação. Eram algodões divinos onde repousavam os segredos mais delicados do nosso existir!!! Eu caminhava por esses campos celestes, descalça sobre a neblina, e sentia-te perto, não como uma presença física, mas como a própria respiração do mundo. A poesia era o nosso território sagrado, a geografia de um amor que existia para além do tempo e do espaço.

E... cada palavra tua era, de facto, um voo. Um voo silencioso e poderoso que me erguia do chão dos dias cinzentos, da gravidade banal da rotina. Elas não me puxavam para o alto; antes, convidavam-me a lembrar que eu também tinha asas. Lias-me a mim mesmo através delas. Eras o vento sob as minhas penas, a coragem que precisava para abandonar o solo firme e mergulhar no abismo glorioso do sentir. Havias escrito um mapa de estrelas e eu seguia-o, cego de confiança, sabendo que cada verso levava-me mais perto do centro de tudo.

Os ventos segredavam o teu nome. Ahhhhh, e esses ventos??? Eles eram os mensageiros fiéis da tua alma!!! Nos dias de quietude, sussurravam-te nas folhas das árvores; nas tempestades, gritavam-te no trovejar da paixão. E eu ouvia. Aprendi a linguagem do ar apenas para decifrar cada fonema do teu ser. Eles bordavam o infinito com versos invisíveis, uma tapeçaria cósmica onde a nossa história era entrelaçada com fios de luz lunar e tremor de constelações. Nesse ponto entre o céu e a terra, onde a alma já não distingue o que é seu do que é do outro, repousava um silêncio. Mas não um silêncio vazio. Era um silêncio de eternidade, pleno, denso, repleto de todos os sons não ouvidos e de todas as palavras não ditas. Era o silêncio que existe no centro de um girassol, no núcleo de um átomo, no intervalo entre duas batidas do coração quando ele reconhece a verdade. Era nesse silêncio que eu finalmente entendia-te, sem necessidade de linguagem, porque éramos apenas dois espíritos a repousar na paz do que sempre foi.

E.... em cada linha, sim, eu encontrava um pedaço do sol. Não um sol que queima e cega, mas um sol que aquece e revela. Era um renascer contínuo, um despertar de sementes adormecidas no mais profundo do meu ser...!!! Cada metáfora tua era um raio de luz a fertilizar terras áridas dentro de mim, fazendo florescer jardins de esperança e vulcões de ternura.... Sentia a vida, a minha vida, a ser reescrita por essa luz. As sombras dos meus medos recuavam, os invernos da minha dúvida derretiam-se, e eu renascia, vezes sem conta, mais forte, mais inteiro, mais consciente da beleza brutal que é estar vivo e capaz de sentir tão profundamente.

Chegou um momento em que percebi que não estava apenas a ler um texto. Estava a ler um destino. A vida inteira, com os seus acasos aparentes, seus caminhos tortuosos e seus encontros fortuitos, tinha sido escrita para me conduzir até ti. Cada alegria, cada dor, cada momento de espanto ou de desespero, tinha sido uma palavra, uma vírgula, um ponto final que compunha o grande poema que era a minha existência, e o clímax, o verso mais puro e mais sublime, era este: encontrar-te.

Não no sentido físico, não necessariamente. Mas encontrar-te na essência. Encontrar a tua cor na paleta do mundo, a tua nota na sinfonia do meu universo.... Encontrar o eco da tua voz no murmúrio de um rio, a suavidade do teu toque na brisa da tarde, a profundidade do teu olhar no céu estrelado. Encontrar-te como se encontra a peça final de um puzzle, que não completa a imagem, mas que a revela, mostrando que aquele caos aparente era, afinal, uma ordem perfeita e bela!!!

Por isso, eu lia-te. E ao ler-te, lia o amor!!! Ao encontrar-te, encontrava-me.... E nesse eterno renascer, nesse voo perpétuo, percebi que o maior ato de fantasia não é imaginar mundos que não existem, mas é reconhecer a magia vertiginosa que existe neste mesmo mundo, quando iluminado pela luz de quem sabemos, no fundo da alma, ter sido escrito para nós, desde o primeiro verso da eternidade.

E assim, no grande livro do universo, as nossas almas continuam entrelaçadas... 

...duas histórias, uma só narrativa, infinita...!!!

TilaC



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